Diário de Bordo – Paraguai – Pt. 1

Sabe, eu sempre quis fazer uma viagem missionária, mas nunca tinha dado certo; sempre me pegava preso ao trabalho e meus chefes nunca foram compreensivos quando o assunto é deixar as tarefas do cotidiano para fazer um serviço puramente voluntário. Eu não condeno, normalmente os religiosos começam a atacar dizendo “como assim? É um serviço santo e espiritual!!! Seu chefe não entende, que Deus lhe dê misericórdia…”. Eu não julgo chefes que não podem liberar seus funcionários, afinal de contas todos os cristãos tem que trabalhar, já diziam Calvino e Paulo. E quem disse que o trabalho missionário é santo e espiritual e o trabalho secular é profano? Tudo é espiritual. Gosto do que Rob Bell diz a respeito disso, ele fala que em hebreu a palavra espiritual não existe, pois para o judeu não havia sentido de algo espiritual e não-espiritual, pois tudo é espiritual. A única diferença é se os seus olhos estão abertos ou não para isso.
Bem, a viagem começou na quinta-feira, 8 de outubro de 2009, no Mackenzie Tamboré. Nosso ônibus deveria ter saído às 20:30, porém como todo evento presbiteriano (pelo menos todos aos quais compareci), na hora marcada não estava lá. E o Mackenzie Tamboré é conhecido por sempre estar frio; parece que há uma bolha que envolve o local e ninguém estava muito bem preparado para esperar no frio. Acabamos esperando pouco mais de uma hora, até que o ônibus chegou. Quando entramos no ônibus, dei logo de cara com um monte de gente que não conhecia e imaginei que fossem todos do Mackenzie de São Paulo. A galera meio quieta, imaginei que houvesse pouca gente que realmente se conhecesse lá, porém me disseram “você vai ver que em pouco tempo tá todo mundo conversando como se fossem velhos amigos”. Eu não botei muita fé nesse comentário. E estava errado. Algumas horas depois, já estávamos conversando sobre tudo e falando sobre o vídeo do “Pregando a Briba” onde o “pregador” diz frases inesquecíveis como:
– A Briba diz que Isac apresentô morto com Cristo
– Ali a Briba fala que Mozés cheiro do poder do espírito de Deus. A briba fala que Mozés bateu com a vala no… bateu com a vara no má. E o má se abriu. Irmão, ali a Briba falô para Mozés: Mozés, Moshé, Moshé, erés Codó. Ali Deus unçô Mozés naquela hora e disse: Mozés, te aumilha na presença de Deus.
– Fala Senhor pra que teu cego ouça
– A Briba ali ali tobém fala, a Briba diz ali fala que Deus almou o mundo de tão maneira que deu seu filho ali gêmeo para todos aquele que crê é a vida eterna
– Ali Deus Pedro chamô, filho do truvão. O nome Pedro e Thiago filho do truvão, filho du da bença.
– Ali Deus tobém falô para Davi: Cego meu, seja banani comigo

Eu acho que ainda verei esse vídeo o resto da minha vida e continuarei dando risada dele. É isso que dá, 25 horas dentro do ônibus, começam os ataques de bobeira. Uma das coisas mais difíceis no ônibus foi dormir enquanto a galera batia um papo teológico lá no fundo e eu queria ouvir.
Foram diversas paradas na estrada, umas para comer alguma coisa, umas para aliviar o joelho e o ventre. A parada principal foi na Missão Caiuá, uma base missionária que trabalha com indígenas. Nós pretendíamos tomar café da manhã lá, mas chegamos ao meio-dia então o café se tornou almoço. Não deixou de ser gostoso, já conversei um assunto interessante com um pessoal do ônibus lá na mesa do café. Depois, fomos visitar a missão. Aliás, fazia um calor danado. Marcos Botelho tem uma teoria que o inferno fica lá perto da Guiana Francesa, porque quanto mais se sobe, mais quente fica. Estava MUITO calor, imagina se subíssemos mais um pouco.
É um lugar bem legal, varias casas, um hospital, uma ala para crianças desnutridas, mas o que mais me chocou nessa área foi um cachorro desnutrido.
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Pobre animal.
Também sentamos e louvamos a Deus um tempinho, é sempre bom louvar e adorar o Criador do Universo, apesar de que nunca O louvemos ou louvaremos como Ele merece.
De volta ao ônibus, a conversa já fluía melhor com a galera que estava conosco, sempre jogando conversa fora, comendo besteira e dando risadas. Quando é que o corpo de Cristo é mais Corpo? Nessas horas ou na igreja?! Veja aqui um videozinho da brincadeira:

Fomos até Ponta-Porã e lá nos separamos da maior parte da galera que estava no ônibus, 32 pessoas foram para uma aldeia indígena e 12 (eu, incluso) para o Paraguai. Fomos até um postinho pegar o “permiso”, documento que permite a estada no Paraguai e depois fomos pegar outro ônibus para Concépcion, o destino final.
Mas… perdemos o ônibus. Foi tudo tão repentino, eu mal vi o que aconteceu, só me lembro que o pastor mandou eu subir em uma caminhonete de um pastor conhecido dele e eu sentei na caçamba, cabelos ao vento, pé preso nas caixas e meio atordoado da correria. Uma foto assustado:

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Alcançamos, afinal, o ônibus perdido. Era um ônibus daqueles de filme, velho, quebrado, azul cor de banheiro de escola de freira, cortinas vermelhas. Aquele tipo de ônibus que você espera encontrar um jegue com a cabeça para fora no último banco. E para piorar, o ônibus era leiteiro, parava de ponto em ponto para pegar gente. A viagem que deveria durar duas horas durou três e meia. E todos os paraguaios eram iguais, parecidos com o Evo Moralez (sei que ele é da Bolívia).
Chegando ao destino, paramos na escola onde a missão ocorreria e uma surpresa nos esperava: arroz e feijão com carne moída! Sabe quando você se sente agradecido demais por algo que nunca soube dar muito valor? Então, foi isso. Eu sinceramente nunca me senti tão feliz de comer arroz e feijão. Olha, nada melhor do que a comida brasileira. Já estive em muitos lugares, mas a comida brasileira é a melhor. Jantar terminado, fomos para um albergue para pernoitar e já iniciar o trabalho no dia seguinte, bem cedo. Chegando no hotel, vi a morte acontecendo: um cachorro enorme saiu de dentro do hotel, olhos ameaçadores, dentes afiados e prontos para matar. Mas ele não fez nada. Ainda bem que eu sou bem corajoso, NÉ?! Com minhas habilidades e muito furtivo, consegui tirar uma foto do predador um pouco depois dele optar por não dar o bote.
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Enfim, o albergue era um pouco empoeirado e minha rinite já começou a aparecer, mas graças a Deus não incomodou muito.
No dia seguinte, depois de 25 horas de ônibus e horas de sono, acordamos, café-da-manhã e mão na massa. Fomos para a escola e conhecemos uma parte das crianças e eles eram bem amorosos, bem simpáticos. Eu acho que usamos muito errado o termo “carente”. Nós chamamos pessoas pobres de carentes. E os ricos? Conheço tantos ricos afundados na própria grana que estão carentes de amor e compreensão. Enquanto as pessoas mais pobres são carentes de recursos, nós somos carentes de sentimentos, muitas e muitas vezes. Entramos na escola, teve uma pequena apresentação de todos os brasileiros que estavam lá para trabalhar e um dos paraguaios fez uma apresentação de teclado de uma música que parecia do kiko.
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Enfim, começamos a trabalhar e a escola estava em um estado bem ruim. Começamos pintando, mas foi difícil, pois as crianças ficaram tão animadas com a nossa presença lá que eles mesmo queriam trabalhar e não queriam deixar a gente fazer muita coisa. Saí de lá com a sensação que poderíamos ter trabalhado mais, mas mesmo assim foi muito gostoso.
Almoçamos lá também e a comida era muito boa. Descobri que sopa lá é uma espécie de bolo. E lá se toma o suco de uma fruta chamada pomelo, muito gostosa. A primeira vez que tomei, me imaginei bebendo suco de cogumelo e já senti o barato vindo. Mas ouvindo melhor, o efeito psicológico passou. Mesmo depois de termos comido, ficamos na mesa dando risada, conversando e se conhecendo. Esse tipo de viagem é muito gostoso porque conhecemos nossos irmãos e irmãs em Cristo que nem temos idéia de como são. É bom conhecer a família.

Continua…!

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5 Comentários

Arquivado em Diário de Bordo

5 Respostas para “Diário de Bordo – Paraguai – Pt. 1

  1. Escreve MUITO.

    A melhor parte da viagem é a despedida, pois nela sentimos saudade.

    (frase que usei pra xavecar uma guria num acampamento a muito tempo atras.)

    Contudo é verdade, como é bom notar que sentimos saudade de pessoas que passaram apenas 2 dias com a gente, é delicioso notar como sentimos saudade de pessoas que nunca vimos e talvez nunca mais as veremos.

  2. Lalá

    Suco de pomelo é o melhor!!
    Esses paraguaios são muuuuito bons anfitriões! Queria ver se a gente os receberia tão bem quanto eles nos receberam….me senti até constrangida por tanto carinho deles.

    Na parte do cachorro, você omitiu a parte “empurrei a Larissa na minha frente, porque se o cachorro avançasse, que atacasse ela primeiro!” hahahaha

    Incrível como nessas viagens acontece um entrosamento entre as pessoas totalmente inimaginável, né? É bom demais…!
    Família é família, em qualquer lugar.

    Beijo!

  3. Lalá

    faltou comentar que nao dava pra entender nada do que eles falavam por causa do guarani misturado…haha

  4. nilcea trigo

    “barato” psicossomático!!!!! só vc mesmo!!! hehe

    post muito agradável de ler, com figuras e td o mais!

    bjs mil <<

  5. Meu nome é Otavio Kiyoshi Hasegawa, faço parte do Grupo Escoteiro Jabuti 108/SP, estamos organizando um contigente para irmos no proximo Dia Mackenzie Voluntário, nosso Diretor Presidente Sr. João Luiz, é Professor do Mackenzie e gostaria de manter contato com alguém que participou do evento passado, para uma Palestra em nosso Grupo.

    Nome: Otávio
    Telefone:11-3768-0160
    Celular: 9229-3477

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