Arquivo do mês: agosto 2010

Lugares Vazios

Comecei a graduação em Administração com ênfase em Comércio Exterior em agosto de 2006, 4 anos atrás. Conheci ótimas pessoas, revi outras que pensava não rever, comecei a falar com quem nunca imaginei que um dia seria meu amigo e também aprendi o que é o convívio com gente diferente. Conheci professores malucos nos quais claramente identificava prazer em acabar com um aluno e outros que entendiam de verdade o que é “liderança coach”. Vi algumas pessoas ficarem para trás, vi amigos demonstrando potencial que me deixaram de boca aberta e me estressei como se a minha nota fosse peça chave em alguma guerra nuclear. Fiz um trabalho de conclusão de curso com amigos que me custou boas noites mal dormidas, preocupando-me com o que aconteceria no dia da tão esperada apresentação.

No meu sétimo semestre, tive a oportunidade de viajar a Walt Disney World em um daqueles programas Work & Travel, trabalhar nas lojas de varejo da Disney e também morar com outros “Cast Members” – termo utilizado para definir quem trabalha na Disney, um membro do elenco. Havia apenas um preço: não me formaria com as pessoas que estiveram comigo. E claro que eu escolhi pagar o preço, a oportunidade valeria a pena para meu crescimento pessoal e profissional e para muitas risadas inesquecíveis com pessoas que me marcaram de uma forma ou de outra. Eu nem  pensei que não fazer festa com pessoas que eu conhecia há tanto tempo faria alguma diferença, simplesmente era algo natural.

E ontem foi o primeiro dia na faculdade “sozinho”, fui dirigindo, estacionei o carro e fui caminhando em direção à sala em meio a um sentimento nostálgico e divertido ao mesmo tempo, resgatando memórias do que havia sido e não é mais não importa o quanto eu queira fugir da realidade. Cada banco, cada porta pela qual passava, cada degrau que pisava representava uma lembrança de um momento que se foi e nada, absolutamente nada conseguirá resgatar. Acabou.

Tudo isso me faz pensar em uma verdade valiosa: pessoas são especiais, não lugares. Lugares são vazios. As mais belas catedrais, prédios modernos, castelos antigos e monumentos entre as 7 maravilhas do mundo, todos podem tirar o seu folêgo, mas eles só ganham vida quando pessoas fazem parte deles, mesmo que seja só para desaparecerem na paisagem.

Entendi essa verdade valiosa ontem, minha faculdade pode ter ótimas instalações, um lugar privilegiado, mas sem as pessoas que fizeram do lugar um lugar especial, não passa de um poço de memórias que não importa quantas moedas eu jogue, o desejo de voltar a ser real não se concretizará. Toda vez que voltei de uma viagem que me marcou, eu costumava dizer “quero voltar”, frase que meu pai replicava “nunca será a mesma coisa, você vai ficar lembrando de como foi e vai se decepcionar porque não será a mesma coisa”. Ah, como ele estava certo… Hoje sei que nunca será, por mais que eu volte.

Em uma palestra sobre acolhimento, tive o privilégio de ouvir meu pastor dizer “igreja não é prédio, igreja é gente”. Hoje em dia, igrejas se encontram em cafés, salas de reunião, bares, baladas alugadas, hotéis, galpões, teatros, cinemas, ao ar livre e todo o tipo de lugar que você conseguir imaginar. E mesmo assim, tantas igrejas agem como se o “templo” de pedra fosse o Templo Judaico, um lugar sagrado, a liderança tenta transformar em sacro o que não passa de um prédio feito de pedras, um lugar morto. Colocam-se placas imaginárias que todos conseguem ler “aqui não se toca Rock, não se bebe água, não se entra de bermuda, não se fala palavrão, não se faz barulho”. A realidade é que não muda nada se alguém fosse pego fazendo sexo dentro do suposto templo ou se a mesma coisa acontecesse entre dois estranhos na faculdade. E sei que dói de ler porque já fomos muito bem acostumados a crer que o prédio é santo, não as pessoas.

Muitas igrejas se tornaram baladas na Europa e muitos perdem tempo pensando que os “ímpios blasfemam a casa do Senhor”. Imagine a sua igreja com outras pessoas que nunca viu: simplesmente não é o mesmo lugar. Por causa do valor e vida que um lugar ganha com as pessoas que ali estão. É comum ver pessoas que passam algum tempo em viagem missionária e retornam depois de alguns anos, elas dizem “é estranho, tudo mudou, tudo é diferente” – é porque as pessoas mudaram, novas vidas, novas faces, nova cara.

A igreja é viva. Você é o templo, você é a habitação de Deus, você está vivo.

Igreja é gente.


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Cicatrizes

Quantas cicatrizes você tem?

Sei que essa pergunta faz lembrar de algumas. Toda vez que deixo o olhar baixar em minha mão esquerda, vejo uma pequena cicatriz de uma brincadeira de criança com meu irmão caçula. Ele estava segurando uma pequena faca e acabou acertando minha mão em um movimento brusco. Falando da infância, eu costumava andar bastante de bicicleta sozinho no condomínio onde morava, gostava de pedalar por horas, perdia toda a noção do tempo quando estava numa bike. Lembro-me de uma vez específica que estava em alta velocidade e havia esquecido que aquele dia estava justamente com a bike sem freios que meus pais sempre me alertaram a não usar. Estava descendo rápido uma ladeira e não havia como parar, simplesmente me joguei para fora e caí com os joelhos no asfalto. Voltei para casa com os joelhos sangrando e até hoje quando olho para os meus joelhos lembro desse momento, dolorido na hora, mas com certeza um grande aprendizado: nunca usar um veículo sem freios. Se olho para o meu joelho esquerdo vejo uma pequena marca e sei da onde ela veio.
Também tenho duas cicatrizes no pé esquerdo devido a uma operação pela qual passei quando tinha somente 11 anos, recordo-me das sessões de fisioteria, trocar o gesso toda semana e visitas frequentes ao médico para avaliação de meu progresso.

Toda cicatriz tem uma história.

Muitas vezes as marcas de dor são claramente visíveis: cortes, queimaduras e amputações. Outras vezes, não é tão fácil de ver: traição, amizades destruídas, decepções, segredos vergonhosos. Sofrimento estampado no rosto e disfarçado no sorriso e no orgulho. Caminhando do meu trabalho de volta à minha casa, gosto de olhar atentamente para os rostos de pessoas que passam por mim e jamais saberei quem são. Sempre há alguém claramente marcado pela dor. A música Scars da banda Papa Roach diz “nossas cicatrizes nos lembram que o passado é real.” Cicatrizes significam que já houve uma ferida lá, já houve algo que necessitou de tempo para curar. E a presença de uma cicatriz significa que as coisas nunca mais serão as mesmas, mesmo que curadas. Sempre contarão uma história, sempre estarão lá. Sabe, às vezes me pego ouvindo alguém dizendo “você precisa esquecer isso!” ou “é só agir como se nada tivesse acontecido!” – mas todo mundo sabe que isso não funciona. Onde há uma ferida, há dor e necessidade de cura. E onde houver cura, haverá uma cicatriz porque as coisas jamais permanecem como eram antes. O tamanho da marca depende da gravidade do ferimento: às vezes é um segredo que alguém contou para a pessoa errada, uma mentira ou uma traição. Eventualmente você superará e perdoará. E a cicatriz estará lá para ensinar uma lição, ensinar a ficar mais atento.

Você sabia que Deus se importa com as suas feridas? Eu sei que você já ouviu isso milhares de vezes, mas às vezes a gente ouve tanto que deixa de ouvir. A Bíblia conta uma história que fala ao meu coração, de quando Jesus é abordado por uma mulher que simplesmente começa a chorar aos seus pés durante um jantar. Esta mulher estava tão machucada que quando encontra Jesus simplesmente chora e enxuga seus pés com o próprio cabelo. A mulher desconhecida carregava nas costas o peso de seus pecados de tal forma que se tornara paralisada pelas feridas abertas que foram se formando ao longo dos anos. Jesus incrivelmente conforta essa mulher com a frase “Vá em paz, seus pecados estão perdoados”.

Jesus cura. Jesus quer que nossas feridas cicatrizem e contem uma história de redenção, de como perdão e alegria substituiram rancor e tristeza.

Você sabia que Jesus carrega cicatrizes até hoje? Marcas e feridas de dor e sofrimento foram curadas e hoje contam uma maravilhosa história de redenção, furos nas mãos e nos pés do homem-Deus um dia significaram sofrimento e hoje testemunham sobre o maior amor que o homem presenciou. As coisas jamais serão como um dia foram, Jesus jamais será humilhado novamente e hoje Ele dá vida àqueles que o buscam.

Tudo mudou.

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Igreja e Coca-Cola

Veja algumas embalagens encontradas mundo a fora.

1 – Russia (russo)
2 – China (chinês)
3 – Israel (hebraico)
4 – Coréia do Sul (coreano)
5 – Dubai (árabe)
6 – Japão (japonês)
7 – Nepal (nepalês)
8 – Napal (nepalês)
9 – Tailandia (tailandês)
10 – Tailandia (tailandês)
11 – Etiópia (amárico)
12 – Taiwan (mandarim)

Coca-Cola é sempre Coca-Cola. Em qualquer reunião de amigos, não pode faltar Coca-Cola. O Jingle da marca já dizia “sempre que tem diversão, tem Coca-Cola”. No calor, a Coca-Cola trincando refresca. No frio, ajuda a saborear o fondue de queijo e chocolate perto do fogo da lareira. Por mais que seus pais digam que Coca-Cola não faz bem e que se você deixar um osso de galinha mergulhado nela ele vira borracha, você não abre mão.

Qualquer lugar do mundo que você visite, toda a nostalgia de estar longe de casa invade seu ser, você sente falta de um abraço da família ou da namorada, do som gostoso das risadas dos amigos, das pessoas com as quais você cruza no caminho para o trabalho, mesmo que nunca dê um olá ou um sorriso amistoso. Depois de algum tempo, começa a sentir falta de coisas que nunca imaginou sentir: o vizinho chato que ouve pagode com volume alto nas manhãs de domingo, o porteiro mal humorado, o som do carro de propaganda política, o som do carro que grita desafinado “candida”. Mas tem uma coisa que você encontra em todo lugar: Coca-Cola. É fácil de encontrar: no frigobar do quarto por um preço exuberantemente alto, na cafeteria da escola de intercâmbio, no Wal-Mart, no aeroporto. É sempre divertido ver a embalagem e o logo adaptado à lingua do país. Coca-Cola que se adapta à cultura e não deixa de ser o que é. Um dos meus melhores amigos sempre pede que eu lhe traga uma latinha quando eu viajo.

E tem uma coisa que eu sempre ouço de amigos que experimentam Coca-Cola longe de casa: é Coca-Cola, mas nunca é igual a de casa. Isso só me faz pensar que a igreja tem muito o que aprender com a Coca-Cola.

A igreja precisa aprender a ser referência. Precisa saciar a sede de pessoas sedentas. Precisa entender como pessoas diferentes pensam diferente e cada realidade possui um contexto diferente. Precisa estar presente na mesa do rico e na mesa do pobre. Precisa deixar para trás a imagem de tédio e obrigação e abraçar o que é novo e atraente. A igreja precisa aprender a mudar sua cara e se adaptar conforme a cultura, precisa aprender outra língua e falar o que o povo fala sem perder a sua essência. A igreja precisa trocar a embalagem sem mudar o conteúdo.

A igreja precisa ser mais Coca-Cola.

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