Lugares Vazios

Comecei a graduação em Administração com ênfase em Comércio Exterior em agosto de 2006, 4 anos atrás. Conheci ótimas pessoas, revi outras que pensava não rever, comecei a falar com quem nunca imaginei que um dia seria meu amigo e também aprendi o que é o convívio com gente diferente. Conheci professores malucos nos quais claramente identificava prazer em acabar com um aluno e outros que entendiam de verdade o que é “liderança coach”. Vi algumas pessoas ficarem para trás, vi amigos demonstrando potencial que me deixaram de boca aberta e me estressei como se a minha nota fosse peça chave em alguma guerra nuclear. Fiz um trabalho de conclusão de curso com amigos que me custou boas noites mal dormidas, preocupando-me com o que aconteceria no dia da tão esperada apresentação.

No meu sétimo semestre, tive a oportunidade de viajar a Walt Disney World em um daqueles programas Work & Travel, trabalhar nas lojas de varejo da Disney e também morar com outros “Cast Members” – termo utilizado para definir quem trabalha na Disney, um membro do elenco. Havia apenas um preço: não me formaria com as pessoas que estiveram comigo. E claro que eu escolhi pagar o preço, a oportunidade valeria a pena para meu crescimento pessoal e profissional e para muitas risadas inesquecíveis com pessoas que me marcaram de uma forma ou de outra. Eu nem  pensei que não fazer festa com pessoas que eu conhecia há tanto tempo faria alguma diferença, simplesmente era algo natural.

E ontem foi o primeiro dia na faculdade “sozinho”, fui dirigindo, estacionei o carro e fui caminhando em direção à sala em meio a um sentimento nostálgico e divertido ao mesmo tempo, resgatando memórias do que havia sido e não é mais não importa o quanto eu queira fugir da realidade. Cada banco, cada porta pela qual passava, cada degrau que pisava representava uma lembrança de um momento que se foi e nada, absolutamente nada conseguirá resgatar. Acabou.

Tudo isso me faz pensar em uma verdade valiosa: pessoas são especiais, não lugares. Lugares são vazios. As mais belas catedrais, prédios modernos, castelos antigos e monumentos entre as 7 maravilhas do mundo, todos podem tirar o seu folêgo, mas eles só ganham vida quando pessoas fazem parte deles, mesmo que seja só para desaparecerem na paisagem.

Entendi essa verdade valiosa ontem, minha faculdade pode ter ótimas instalações, um lugar privilegiado, mas sem as pessoas que fizeram do lugar um lugar especial, não passa de um poço de memórias que não importa quantas moedas eu jogue, o desejo de voltar a ser real não se concretizará. Toda vez que voltei de uma viagem que me marcou, eu costumava dizer “quero voltar”, frase que meu pai replicava “nunca será a mesma coisa, você vai ficar lembrando de como foi e vai se decepcionar porque não será a mesma coisa”. Ah, como ele estava certo… Hoje sei que nunca será, por mais que eu volte.

Em uma palestra sobre acolhimento, tive o privilégio de ouvir meu pastor dizer “igreja não é prédio, igreja é gente”. Hoje em dia, igrejas se encontram em cafés, salas de reunião, bares, baladas alugadas, hotéis, galpões, teatros, cinemas, ao ar livre e todo o tipo de lugar que você conseguir imaginar. E mesmo assim, tantas igrejas agem como se o “templo” de pedra fosse o Templo Judaico, um lugar sagrado, a liderança tenta transformar em sacro o que não passa de um prédio feito de pedras, um lugar morto. Colocam-se placas imaginárias que todos conseguem ler “aqui não se toca Rock, não se bebe água, não se entra de bermuda, não se fala palavrão, não se faz barulho”. A realidade é que não muda nada se alguém fosse pego fazendo sexo dentro do suposto templo ou se a mesma coisa acontecesse entre dois estranhos na faculdade. E sei que dói de ler porque já fomos muito bem acostumados a crer que o prédio é santo, não as pessoas.

Muitas igrejas se tornaram baladas na Europa e muitos perdem tempo pensando que os “ímpios blasfemam a casa do Senhor”. Imagine a sua igreja com outras pessoas que nunca viu: simplesmente não é o mesmo lugar. Por causa do valor e vida que um lugar ganha com as pessoas que ali estão. É comum ver pessoas que passam algum tempo em viagem missionária e retornam depois de alguns anos, elas dizem “é estranho, tudo mudou, tudo é diferente” – é porque as pessoas mudaram, novas vidas, novas faces, nova cara.

A igreja é viva. Você é o templo, você é a habitação de Deus, você está vivo.

Igreja é gente.


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1 comentário

Arquivado em Pensamentos

Uma resposta para “Lugares Vazios

  1. Realmente, Leo, é muito fácil esquecer que Igreja é gente. Além disso, a gente mesmo é a Igreja. Se a gente frequenta, critica, reclama da Igreja, parece que esquece que estamos falando de nós mesmos…

    Graças a Deus que ainda vai ter a Igreja Glorificada – até lá, a gente vai correndo atrás desse objetivo…

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