Um mover de Deus

Já escutei muito essa expressão “um mover de Deus”. Normalmente, ela vem acompanhada de algo do tipo “estou esperando um mover de Deus” ou “quero ver um sinal”. E isso parece extremamente maduro, alguém que espera Deus fazer alguma coisa antes de tomar uma decisão importante. Só que já perdi a conta de como vi essa busca por sinais e maravilhas sendo usado de forma um tanto peculiar…

Há algum tempo atrás conheci um rapaz que me contava que não fazia nada de importante se não sentisse que Deus desse lhe desse um sinal. Não tentaria uma boa entrevista de emprego sem um sinal de Deus, não aceitaria uma boa oportunidade se Deus não lhe falasse. Inclusive, aceitava oportunidades um tanto quanto controversas (para não dizer erradas) quando tinha certeza que Deus lhe dava um sinal. Toda a sua vida era resumida a experiências “sobrenaturais” com Deus, nada que fosse comum era aceito por ele como Deus agindo em sua vida. Para ser Deus, tinha que fazer barulho.

Num desses últimos dias, desabou o céu aqui onde eu moro. Caiu a luz no mesmo dia do Culto de Ação de Graças. Mesmo sem luz, o culto foi feito com louvor e testemunhos. No momento da oração final, a luz piscou, ameaçou de voltar bem no momento que o pastor disse “Amém”. Depois escutei uma mulher dizendo “vocês viram que a luz quase voltou na hora do amém?” Minha resposta (irônica, confesso) foi “Verdade, pena que a fé do povo não foi forte o suficiente” – meus amigos olharam para mim com uma cara de “Você é louco?!”.  O problema é que, se assumirmos que Deus se manifesta somente no sobrenatural, deixamos de ver Deus manifesto no comum e no ordinário. Deixamos de ver Deus no sorriso de uma criança ou no calor de uma tarde de outono, só vemos um Deus que se manifesta por meio de trovões. Enxerga-se o milagre errado: o milagre é o povo de Deus que não deixa de prestar culto a Ele, mesmo sem eletricidade e não no fato de que a luz piscou. Às vezes a luz pisca. Coincidências acontecem.

Volte ao primeiro livro da bíblia e veja: Deus traz à existência a todo o universo, usando e abusando de toda a Sua criatividade. Foi como uma explosão de cores, formas, ideias e vida. Quando a termina, coloca o homem em um jardim e lhe entrega uma lista de coisas: cuidar do jardim, plantar sementes e fazer com que cresçam (responsabilidade ambiental não é coisa nova), fazer sexo com sua esposa e povoar a terra. As funções são tão comuns que deixamos de enxergar que ele tinha um emprego e uma família, assim como a maioria dos homens nos dias de hoje. Deus criou este mundo com princípios comuns: um objeto solto no ar cai, colocar a mão na água fervendo queima, comer comida mexicana (pelo menos no meu caso) demais causa problemas intestinais.

Deus se manifesta por tantas vezes no Antigo Testamento: por meio de fogo no céu, no arbusto em chamas, dentro da fornalha como anjo, fala por meio de uma mula. Mas sua maior manifestação foi como homem em Jesus Cristo. Um homem que fez muitos sinais sim, mas que trabalha muito mais no caráter do que na aparência. Seus ensinamentos eram ensinamentos de uma vida cotidiana: se alguém abusar de você, dê-lhe a outra face; pague mal por bem; seja gentil; perdoe; arrependa-se; ame. Jesus andou sobre as águas, mas não esqueça que andou muito mais de barco.

O Senhor é Deus dos sinais. Ele pode sim enviar sinais a você e não vejo nenhum mal em buscá-los. Talvez no seu caso específico, você realmente precise ver algo mais forte, um empurrãozinho divino. Mas não perca as oportunidades por isso. Esse mundo não é feito de sinais. Esse mundo é feito de princípios, criatividade, forças, coincidências. Talvez seja esse o mover de Deus que você não está enxergando.

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2 Comentários

Arquivado em Pensamentos

2 Respostas para “Um mover de Deus

  1. Leo,

    muito lindo e sensível o seu texto. Parabéns. Além de belamente escrito, tocantemente verdadeiro.

  2. Márcia

    Leo,

    A serenidade do seu encadeamento estilístico me parece combinar de tal forma com o conteúdo, que a mim inspira um ”mover de Deus” igualmente sereno. Sua amizade me faz ser grata a Ele por ter me ensinado a procurar essa mesma serenidade na Bíblia, busca que me faz ser mais confiante e menos dependente de ”sinais”. Acho que entendo ”oportunidade” de uma maneira diferente da sua, mas concordo plenamente que é preciso estarmos atentos aos ensinamentos da vida cotidiana. Obrigada também a você.
    Cute snowfall !

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