In memoriam

Acho que quase todo neto curte o seu avô. Há algum tempo, quando o Orkut ainda era moda, visitei uma comunidade chamada “Avôs nunca deveriam morrer.” Está certo, eles nunca deveriam morrer. Quando vim para a Irlanda, sabia que aconteceria, cedo ou tarde. E como não posso estar presente com minha família no Brasil, vou deixar umas palavras em lembrança do meu querido avô.

Meu avô era um homem espetacular. Era trabalhador, não fazia corpo mole. Durante minha infância, morei numa casa embaixo da casa dos meus avós, então eu estava sempre com ele. Ele adorava os Três Patetas, os Gatões e Chaves. Nunca gostou de Chapolin e sempre me dizia que não entendia onde eu via a graça em assistir o seriado. E eu sempre respondia “não entendo onde o sr. vê graça nos Três Patetas.” Toda a vez que eu lhe pedia que me contasse uma piada, ele dizia:

– Tinham três amigos que acabaram de cozinhar. Eles viram os pratos sujos e fizeram uma aposta: todos colocariam a cabeça dentro de um balde cheio de água, o primeiro que sair lava os pratos ……… O que aconteceu? Morreram todos!!!

E toda vez que contava essa piada, ele chorava de rir. Uma risada que animava nosso dia. Tenho algumas lembranças bem claras dele:

– O cheiro do creme de barbear que ele usava, todo domingo antes de ir à missa.

– Um dia ele me disse que iria fazer cachorro quente para nós, mas ele nunca colocava ketchup. Isso me revoltava, onde já se viu comer cachorro quente sem ketchup?

– Ele gostava muito de mamão, comia mamão como se a fruta lhe trouxesse à mente aquilo que lhe dava esperança. Comia e sorria.

– Ele me ensinou a dirigir, começamos quando eu tinha 13 anos num Pegeout 106 Soleil.

– Adorava jogar dominó. E era um mestre nessa arte. Nós jogávamos muito e ele nunca queria jogar outro jogo. Uma vez tentei ensinar-lhe a jogar Street Fighter no Super Nintendo. Após uma tentativa, voltamos ao dominó.

Ele era um daqueles senhor portugueses cheios de histórias para contar. Aprontava muito, vivia a vida bem. Como todo bom português, comia bacalhau como a gente come arroz e feijão. Era sapateiro, teve uma lanchonete, viveu de aluguel de algumas casas. E eu não quero me gabar, mas eu era seu neto favorito. Ele sempre perguntava por mim e quando estávamos todos os netos reunidos em minha antiga casa no segundo andar, ele ia até a escada e gritava “Tchau, Leonardo!” e nunca ia embora se eu não descesse para lhe dar um beijo. Ele era demais mesmo. Todo Natal guardava uvas passas para mim. Quando comecei a ficar mais velho, comíamos nozes. Na virada do ano, ele sempre me levava ao último andar de sua casa para vermos os fogos.

Quando ficou doente, foi muito triste para todos. Porque vimos a vida de um homem se perder vagarosamente, em passos curtos como quem não quer continuar caminhando. Ano passado, antes de ficar doente, ele disse aos filhos “Cuidem da sua mãe porque agora ela é como um pássaro sem ninho.” Uma das lembranças mais tristes que guardo na vida, foi um dia antes de vir para Dublin, minha avô disse “Dá um beijo nele, porque ele não estar mais aqui quando você voltar” e ouvi então minha avó cantar uma música que fez para ele. Não lembro da letra, mas a música falava sobre a dor que sentia por saber que chegaria o dia que não mais veria seus olhos brilhando e seu sorriso de alegria. Esse dia sinceramente acabou comigo.

Senti na minha avó a dor de perder um grande amor. Viveram mais de 50 anos juntos e um dia tudo se foi. Ontem estava em casa estudando e recebi uma mensagem do meu irmão “Vo morreu.” Simples assim… não há mais o que dizer. Ele estava conosco e de repente a vida com ele já não é.

Aprendi com alguns amigos queridos que o mais difícil de enfrentar não é a saudade… é a presença. A presença da ausência.

Sei que é difícil dizer, mas Deus respondeu nossas orações. Ele sofreu demais por causa da doença e descansou. Deus o deu, Deus o levou; bendito seja o nome do Senhor. Meu avô deixa muita saudades. Mas a esperança é que um dia o verei de novo no reino do meu Senhor.

Obrigado pela aventura! Agora parta para a próxima. Até logo, vô e se divirta. Até nossa próxima partida de dominó.

Em memória de José Maria Filipe
22/05/1925 – 11/11/2011

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4 Comentários

Arquivado em Minha caminhada

4 Respostas para “In memoriam

  1. nilcea

    ***abraço*** <<

  2. Lucas

    Poxa, cara, me arrepiei, muito bom seu blog. \o

  3. Telinha

    LINDO!! Ri e chorei!
    Taí o porque vc era o neto favorito! =)!
    bjo pra vc Leo!

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